Gestão & Governança
A nova economia é cíclica — como a vida, quer percebamos ou não

Como reconhecer o próximo ciclo antes que ele se imponha.
Um modelo pode funcionar durante anos e, ainda assim, estar se aproximando do limite de sua capacidade de responder a um contexto que já mudou. Isso vale para países, empresas, profissões, famílias e indivíduos. Poucas estruturas permanecem adequadas indefinidamente: o contexto muda, as pessoas mudam, as necessidades mudam, e aquilo que funcionava pode deixar de funcionar. A questão central não é evitar a mudança — é desenvolver capacidade para percebê-la, compreendê-la e se adaptar a ela.
Gerações anteriores também enfrentaram seus próprios limites
Houve gerações que precisaram atravessar guerras mundiais, depressões econômicas, hiperinflação, industrialização acelerada, êxodo rural, epidemias, crises do petróleo, ditaduras, redemocratização, globalização, internet e automação. Para quem vivia dentro de cada uma dessas transformações, o resultado não estava dado. Olhamos o passado hoje e temos a impressão de que essas mudanças eram previsíveis. Para quem as atravessava, não eram.
A resposta quase sempre parece mais óbvia depois que alguém a encontrou, testou ou demonstrou que funcionava. O mesmo acontece com grandes transformações: vistas retrospectivamente, parecem mais organizadas, previsíveis e até inevitáveis do que realmente eram para quem precisava decidir enquanto elas aconteciam.
É exatamente essa posição que voltamos a ocupar.
A diferença deste momento: tudo acontecendo ao mesmo tempo
O que talvez distinga este momento não é a existência da mudança, mas a quantidade de transições ocorrendo simultaneamente — e a velocidade com que começam a se relacionar entre si.
Estão em curso, ao mesmo tempo e em velocidades diferentes, transições climática, energética, tributária, digital, tecnológica, produtiva, demográfica, geopolítica e trabalhista, além de transformações monetárias e financeiras — entendidas aqui como mudanças nos meios de pagamento, na circulação do dinheiro, na intermediação financeira, no crédito e na relação entre sistema financeiro e economia real. Todas se afetam mutuamente. Uma inovação tecnológica altera produtividade e demanda por energia; uma mudança tributária modifica margens; uma mudança financeira altera o custo do capital; uma tensão geopolítica reorganiza fornecedores. Não existe uma sequência em que uma transformação termina para outra começar. Existe um sistema em movimento, no qual diferentes transições se reforçam, se limitam ou mudam a direção umas das outras — e chegam juntas à mesa do pequeno empresário, que não tem bola de cristal capaz de apontar o melhor caminho.
A tecnologia pode estar avançando mais rápido que nossa maturidade
A humanidade acumulou capacidade tecnológica extraordinária, mas isso não implica um aumento equivalente da nossa capacidade de usá-la bem. Podemos desenvolver inteligência artificial e continuar sem compreender nossos próprios vieses. Podemos ter mais informação e ainda interpretar mal a realidade. Podemos automatizar comunicação, atendimento e vendas e, ao mesmo tempo, enfraquecer relações construídas ao longo de décadas.
Uma corrente relevante do pensamento contemporâneo de marketing está se deslocando nessa direção. Em Marketing 7.0 (2026), Philip Kotler, Hermawan Kartajaya e Iwan Setiawan propõem o mind-centric marketing: deslocar parte da atenção da otimização por IA para a compreensão de como as pessoas pensam, se conectam e compram — alertando para o risco de a obsessão por performance e IA comprometer a autenticidade das relações entre marcas e pessoas (Wiley).
A reflexão ultrapassa o marketing. Quanto mais poderosas as ferramentas, mais importa perguntar: o que queremos fazer com elas? Muitos pequenos negócios cresceram porque seus proprietários conheciam clientes, fornecedores e funcionários de um jeito que nenhum sistema reproduz — sabiam quem precisava de atenção, quem era confiável, onde estavam os riscos que nunca apareceram em planilha. A tecnologia pode ampliar essa capacidade, mas modernizar não significa substituir relações por sistemas. A pergunta mais sofisticada é: o que deve ser automatizado, o que deve ser ampliado pela tecnologia e o que precisa continuar profundamente humano? Este não é um desafio só tecnológico — é um desafio de maturidade humana e institucional.
A próxima evolução necessária é mais sistêmica do que tecnológica
A formação profissional moderna foi construída pela especialização, o que aprofundou o conhecimento técnico. Mas sistemas complexos criam outro problema: as decisões importantes normalmente atravessam várias especialidades ao mesmo tempo.
Uma empresa pode ter uma estratégia tecnicamente consistente e ser incapaz de executá-la porque sua cultura é disfuncional. Pode acreditar que tem um problema tributário quando o problema está no modelo econômico. Pode tratar uma dificuldade financeira sem perceber que a origem está na operação. Pode investir em tecnologia sem corrigir processos básicos. Pode enfrentar um problema jurídico cuja raiz é uma relação societária mal resolvida.
A função mais sofisticada é identificar qual é o problema real, quais sistemas estão envolvidos e quais competências precisam ser reunidas naquele momento.
A dimensão mais difícil: o próprio ser humano
Nenhuma análise sistêmica está completa se ignorar que empresas são administradas por pessoas — e pessoas não decidem de forma exclusivamente racional. A economia comportamental há décadas demonstra que decisões sob incerteza não seguem exclusivamente o modelo de racionalidade pressuposto pela economia tradicional — foi justamente por integrar psicologia e economia, demonstrando desvios sistemáticos como a aversão à perda, que Daniel Kahneman recebeu, em 2002, o Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, a partir de pesquisas desenvolvidas em grande parte com Amos Tversky; medos, identidades, crenças, vínculos afetivos, conflitos familiares, necessidade de reconhecimento, aversão à perda e padrões nem sempre conscientes também pesam na decisão. Por isso, algumas decisões aparentemente econômicas não são apenas econômicas.
Imagine alguém que afirma há anos: "quero vender este imóvel." O imóvel vai à venda, surge um comprador e, perto da conclusão, o proprietário aumenta o preço, cria uma condição nova, questiona detalhes antes irrelevantes, adia a decisão. Por fora, parece só uma negociação difícil. Por dentro, pode existir outra dinâmica: aquele imóvel talvez represente segurança, memória familiar, status ou medo de mudança. A pessoa pode afirmar, de forma sincera, que deseja vender — e, ainda assim, ter fatores afetivos, identitários ou familiares influenciando a decisão sem que estejam inteiramente claros para ela.
O mesmo acontece dentro das empresas.
Nem sempre é incoerência deliberada — é importante apenas reconhecer que pode haver diferença entre intenção consciente e dinâmica interna.
Todos temos pontos cegos
É comum percebermos nos outros padrões que temos dificuldade de reconhecer em nós mesmos. Podemos ser excelentes analisando empresas alheias e falhar diante de problemas evidentes quando patrimônio, identidade, família ou história pessoal estão em jogo.
Há inclusive um padrão bem conhecido: quando alguém fala mal de outra pessoa com uma ênfase que chama atenção, muitas vezes está revelando mais sobre si mesmo do que sobre quem critica. A psicologia chama esse mecanismo de projeção — atribuir ao outro, com intensidade, exatamente aquilo que temos mais dificuldade de reconhecer em nós.
O objetivo não é eliminar os pontos cegos — provavelmente isso não é possível. O objetivo é ter maturidade para reconhecer que a própria percepção também faz parte do sistema que se está tentando analisar.
Toda solução é contextual e temporária
Não existe estrutura empresarial definitiva. Uma estrutura adequada para uma empresa com cinco funcionários pode ser inadequada quando ela passa a ter cinquenta. O sistema tributário muda, a tecnologia muda, o consumidor muda, a família do empresário muda, o mercado muda, a empresa muda. Uma solução excelente hoje pode deixar de ser adequada meses ou anos depois.
O objetivo não é construir a empresa perfeita. É construir uma solução suficientemente adequada para determinado contexto — e desenvolver capacidade para perceber quando esse contexto mudou. Essa é a diferença entre visão linear e visão cíclica.
O mundo atravessa um período de grande reorganização
No cenário internacional, várias dessas mudanças já se combinam. Segurança energética, mudanças climáticas, reorganização das cadeias globais de valor, inteligência artificial, digitalização financeira, tensões geopolíticas e novas políticas industriais estão alterando decisões de governos e empresas — e o próprio conceito de risco está se ampliando. Risco climático pode aparecer como risco produtivo, financeiro, logístico ou securitário; uma mudança física no planeta pode terminar dentro de uma demonstração financeira; um conflito geopolítico pode alterar o preço de um insumo usado por uma pequena empresa a milhares de quilômetros de distância; uma inovação tecnológica pode reduzir drasticamente o valor de uma competência que levou décadas para ser construída. Sistemas que costumamos analisar separadamente estão, na prática, conectados.
O Brasil muda sua arquitetura enquanto continua funcionando
No Brasil, essa reorganização aparece de forma concreta.
O exemplo mais evidente é a reforma tributária. Em 2026 iniciou-se a fase de testes e implantação da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços, de competência federal) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços, de competência compartilhada entre Estados, Distrito Federal e Municípios). Ao longo do ano, empresas passaram a adaptar sistemas, documentos fiscais e obrigações acessórias segundo cronogramas e regras específicos para cada operação e documento. Para os contribuintes abrangidos pelas obrigações do período de teste, o cumprimento das exigências previstas permite, nas hipóteses estabelecidas pela regulamentação, a dispensa do recolhimento de IBS e CBS em 2026. A transição do sistema tributário, porém, continuará nos próximos anos (Receita Federal). Ao mesmo tempo, o país avança em sua transição energética e em políticas de economia de baixo carbono, conectando energia, infraestrutura, tecnologia e transformação produtiva — documentos oficiais de planejamento, elaborados conjuntamente pelo Ministério de Minas e Energia e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), já tratam a transição como agenda transversal, ligada não só à matriz energética, mas à política industrial, à tecnologia e ao financiamento (MME/EPE). Em paralelo avançam digitalização financeira, inteligência artificial, novas políticas industriais, bioeconomia, economia circular, novas exigências ambientais e transformações no mercado de trabalho.
A empresa brasileira, portanto, não enfrenta apenas uma reforma tributária. Ela opera dentro de uma transição sistêmica. E é aqui que chegamos ao Amazonas.
No Amazonas, essas transições ganham características próprias
O Amazonas está inserido na maior floresta tropical do planeta, com extensa cobertura florestal e biodiversidade de relevância global, ao mesmo tempo em que abriga o Polo Industrial de Manaus e a Zona Franca de Manaus — com enorme potencial de bioeconomia. Há desafios logísticos extraordinários, forte dependência de cadeias nacionais e internacionais, diferenças relevantes entre Manaus e o interior, e a convivência entre grandes indústrias, comércio, serviços, pequenos negócios e informalidade significativa.
Esse ambiente é afetado, ao mesmo tempo, pela reforma tributária, pela adaptação do regime da Zona Franca de Manaus ao novo sistema tributário, pela reorganização das cadeias industriais, pela inteligência artificial, pela digitalização, pela transição energética e pelo crescente interesse econômico sobre biodiversidade. Para quem administra uma pequena empresa na região, essas discussões podem parecer distantes — não são. Em algum momento elas aparecem no preço do fornecedor, na regra tributária, na exigência de um cliente, no acesso ao crédito, na contratação de pessoas, na margem de um produto ou na decisão de continuar investindo.
O que isso significa para uma pequena empresa no Amazonas?
Imagine uma empresa que nasceu há muitos anos com o proprietário, cresceu por relacionamento, contratou familiares, conquistou clientes, comprou imóveis, aumentou estoque e criou controles conforme as necessidades surgiam — parte da gestão permaneceu informal por muito tempo. E funcionou.
Isso precisa ser reconhecido: o fato de aquela estrutura ter funcionado durante anos significa que ela respondeu bem aos problemas do ciclo anterior. Não significa que esteja preparada para o próximo. Agora essa mesma empresa recebe, ao mesmo tempo, os impactos da reforma tributária, da digitalização fiscal, de novos meios de pagamento, da inteligência artificial, de mudanças no crédito, de novos concorrentes, de novos hábitos de consumo, de custos energéticos, de exigências ambientais, de critérios diferentes de grandes compradores, da adaptação do regime da Zona Franca ao novo sistema tributário, da bioeconomia e de mudanças geracionais dentro da própria família.
Há ainda uma mudança menos evidente: o cliente também está mudando. A combinação de digitalização, IA e abundância de informação pode tornar consumidores simultaneamente mais informados, mais exigentes e mais desconfiados — e é aqui que a provocação de Kotler ganha relevância mesmo para uma empresa que nunca usou a expressão "estratégia de marketing": quanto mais sofisticada fica a tecnologia à disposição de todos, mais a autenticidade da relação com o cliente passa a fazer diferença.
Mas antes de qualquer sistema, ferramenta ou processo novo, o que precede essa nova etapa não é tecnológico — é autoconhecimento e clareza de propósito. Modernizar não significa abandonar o que fez o negócio crescer: relacionamento próximo, conhecimento do cliente, reputação e confiança continuam sendo ativos valiosos. O ponto de partida real é saber, com clareza, o que se quer que a empresa se torne e o que ela contribui para o todo — um todo em constante movimento — só depois disso faz sentido decidir o que automatizar, o que ampliar pela tecnologia e o que preservar como profundamente humano.
A pergunta deixa de ser apenas "como organizar a empresa?"
Quando já se tem clareza que a organização é necessária, existe uma pergunta anterior: que mundo está emergindo ao redor deste negócio? Depois: quais dessas mudanças podem realmente afetá-lo? Depois: quais representam ameaça, quais representam oportunidade e quais ainda são incertas? E só então: a empresa que temos hoje é uma boa plataforma para atravessar esse novo ciclo?
A resposta pode não ser confortável. Talvez a empresa precise apenas ser organizada. Talvez precise ser profundamente transformada. Talvez alguns ativos devam ser preservados e outros abandonados. Talvez seja necessário criar uma nova operação. E talvez a análise revele que determinado negócio cumpriu seu ciclo — o que não significa que organizar a empresa deva significar prolongar artificialmente sua existência. Pode significar organizar passivos, monetizar ativos, preservar conhecimento, proteger relações importantes, encerrar corretamente, realocar capital e construir uma estrutura nova, adequada ao próximo ciclo. Encerrar um ciclo não é necessariamente fracassar: em alguns casos, insistir em preservar o modelo anterior consome justamente os recursos necessários para construir o seguinte.
Construir uma Agenda de Transição Empresarial
Ela pode começar com cinco perguntas:
- O que está mudando no mundo?
- O que está mudando no Brasil?
- O que está mudando no Amazonas e no setor específico?
- Como cada uma dessas mudanças pode alterar nosso negócio?
- Queremos adaptar a empresa atual, transformá-la ou preparar um novo ciclo?
A partir daí, constrói-se uma matriz simples: mudança externa → impacto esperado → horizonte → risco → oportunidade → resposta da empresa. Só depois começa a reestruturação — e não pela via automática de "ERP → contador → processos → planejamento estratégico", mas por esta sequência: compreender o ciclo, mapear as transições, compreender o negócio, compreender os proprietários, identificar pontos cegos, construir cenários, decidir qual futuro faz sentido, definir quais profissionais são necessários e como devem interagir, criar uma agenda de transição, executar, medir, reavaliar e, quando necessário, mudar novamente. Porque o processo não termina.
A visão sistêmica não promete uma solução definitiva
Uma abordagem séria não deveria prometer "vamos resolver sua empresa". Seria mais honesto dizer: vamos compreender melhor o sistema em que sua empresa está inserida, identificar seus principais riscos e possibilidades, construir uma resposta coerente com este momento e criar mecanismos para perceber quando essa resposta precisar ser revista. Isso reconhece a incerteza sem produzir paralisia. Não precisamos conhecer exatamente o futuro — precisamos ampliar nossa capacidade de observar, interpretar, decidir, adaptar e aprender.
Talvez a capacidade de aprender importe mais do que o plano perfeito
A maior vantagem competitiva do próximo ciclo talvez não seja ter a melhor previsão, mas a maior capacidade de adaptação. Previsões erram, tecnologias surpreendem, governos mudam, crises acontecem, consumidores mudam, sócios envelhecem, filhos assumem empresas — ou decidem não assumir. Mais importante do que um plano rígido para dez anos é construir uma organização flexível e resiliente como forma de funcionar, e não como ponto de chegada.
A visão cíclica lembra que nenhuma estrutura é permanente. A visão sistêmica mostra que nenhuma transformação relevante acontece isoladamente. A visão interdisciplinar reconhece que nenhum profissional possui todas as respostas. Kotler acrescenta que mais tecnologia não elimina a necessidade de compreender pessoas — pode torná-la ainda mais importante (Wiley). E o autoconhecimento acrescenta a última camada: nenhuma estratégia é completamente independente das pessoas que precisam executá-la.
Para uma pequena empresa do Amazonas, preparar-se para o próximo ciclo não significa apenas se adequar à reforma tributária, instalar um sistema, buscar crédito ou adotar práticas ambientais. Significa aprender a observar, ao mesmo tempo, o mundo que muda, o Brasil que se reorganiza, o Amazonas que procura seu lugar no próximo ciclo econômico, o setor que se transforma, a empresa que amadurece e as pessoas que precisam decidir o que preservar, o que transformar e o que deixar terminar.
A solução construída será necessariamente temporária. Isso não é uma deficiência — é consequência da própria natureza cíclica do sistema.
Este texto é uma reflexão de gestão, escrita sob a perspectiva da administração. Não constitui parecer jurídico, contábil ou tributário. Decisões específicas — especialmente as que envolvem a reforma tributária e o regime da Zona Franca de Manaus — devem ser validadas com os profissionais habilitados de cada área, à luz do contexto concreto de cada empresa.
◆ Sobre a autora

Raquel Lauria
Doutoranda · RTL Amazônia
Administradora (CRA-AM), perita judicial (CONPEJ), corretora (CRECI/AM) e avaliadora de imóveis (CNAI). Doutoranda em Economia Circular e Produção Sustentável.
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