Saúde, finitude e disrupção em ecossistemas complexos: o que 2030 nos permite enxergar?

Lidar com questões de saúde altera a percepção do tempo.
A finitude, normalmente tratada como conceito abstrato, aproxima-se o suficiente para reorganizar prioridades diante das limitações humanas — e, talvez por isso, permita enxergar algumas coisas de outro lugar.
Também convida a observar uma característica comum ao corpo humano, às empresas, às instituições e às sociedades: sistemas complexos podem permanecer aparentemente funcionais durante muito tempo enquanto compensam silenciosamente desequilíbrios internos. Uma crise nem sempre cria a fragilidade. Muitas vezes, apenas modifica o contexto o suficiente para torná-la visível. E aquilo que se torna visível pode produzir ruptura — ou aprendizado.
Quando as partes deixam de enxergar o todo
A microbiota humana oferece uma metáfora interessante. Um organismo saudável não é constituído por um único agente dominante. Há milhares de componentes coexistindo em relações de cooperação, competição, regulação e adaptação. Saúde não significa ausência de tensão. Significa capacidade de sustentar equilíbrio apesar dela. Organismos, empresas e sociedades evidentemente não são equivalentes. A analogia serve apenas para provocar uma pergunta: o que acontece quando uma parte do sistema passa a enxergar apenas a própria necessidade, o próprio esforço ou a própria narrativa?
Na democracia, divergência não é doença. A pluralidade pertence à sua arquitetura. Uma posição política, porém, pode se fundir de tal maneira à identidade individual que uma crítica à ideia passa a ser percebida como crítica à própria pessoa. O argumento do outro deixa de ser informação a examinar e passa a representar ameaça a repelir. Talvez nenhum grupo possua o monopólio desse fenômeno. E talvez todos estejamos, em alguma medida, sujeitos a ele.
O sistema que continua existindo depois da eleição
O chamado presidencialismo de coalizão ajuda a compreender por que governar o Brasil é mais complexo do que simplesmente eleger um presidente. O chefe do Executivo é escolhido separadamente do Congresso e, em um sistema multipartidário, seu partido frequentemente não possui sozinho votos suficientes para sustentar toda a agenda. Governar exige construir maiorias, negociar prioridades e formar coalizões.
Coalizões não são, por definição, corrupção. A literatura de ciência política mostra que governos de coalizão existem em diversos regimes presidenciais e não são uma singularidade brasileira. Fonte: SciELO
A pergunta mais interessante talvez seja outra: que comportamentos essa arquitetura incentiva — e quão capaz o próprio sistema é de corrigir seus excessos? A questão ganha outra dimensão quando observamos os níveis de confiança entre os próprios brasileiros.
Segundo dados do Latinobarómetro de 2020 analisados pela OCDE, apenas 4,7% dos brasileiros entrevistados declararam confiar na maioria das pessoas, o menor percentual registrado entre os países latino-americanos comparados naquele levantamento. A OCDE também discute a relação entre confiança interpessoal, cooperação e confiança institucional. Fonte: OECD
Isso não significa que os demais brasileiros sejam desonestos. Talvez revele algo mais profundo: esperamos pouco uns dos outros. E expectativas também moldam comportamentos. Quando partimos da premissa de que o outro provavelmente tentará levar vantagem, cresce o impulso de antecipar-se, proteger-se, desconfiar e normalizar pequenos mecanismos defensivos.
Pouco a pouco, estratégias criadas para sobreviver à falta de confiança podem produzir novas razões para continuarmos desconfiando. O sistema passa a alimentar a própria disfunção.
Quando o pregão vira teatro
O pregão pressupõe concorrência real. Mas vários CNPJs não significam necessariamente vários interesses independentes. Quando estruturas economicamente robustas pulverizam sua atuação em diferentes empresas, coordenam estratégias ou utilizam estruturas formalmente pequenas para ocupar espaços concebidos justamente para pequenos negócios, o certame pode preservar a aparência de competição enquanto esvazia sua substância.
Não se trata apenas de hipótese abstrata. O CADE descreve práticas como supressão de propostas, retirada coordenada e propostas destinadas a conferir aparência de competição entre estratégias associadas a cartéis em licitações. O TCU possui jurisprudência segundo a qual declaração falsa de enquadramento como ME ou EPP para usufruir dos benefícios correspondentes configura fraude à licitação; em 2026, a CGU também publicou nota técnica específica sobre declarações ideologicamente falsas dessa natureza. Fonte: CADE
Para a pequena empresa genuinamente independente, resta o custo de disputar um jogo em que talvez nem todos estejam jogando pelas mesmas regras. O problema se agrava quando a ganância de quem já possui escala busca capturar também vantagens concebidas justamente para impedir que os pequenos sejam sufocados.
Em ambientes de policrise — econômica, institucional, social e tecnológica — as estratégias dos grandes se reorganizam rapidamente, enquanto os desafios das pequenas se multiplicam. A pequena empresa independente pode então parecer um grão de areia incômodo na engrenagem: pequena em escala, livre de determinados arranjos e persistente o bastante para continuar disputando. Talvez esteja aí uma forma silenciosa de tenacidade empresarial: continuar na batalha sem permitir que a dificuldade ensine a corromper aquilo que se pretende construir.
A digitalização, porém, acrescenta uma variável nova: o passado deixa cada vez mais rastros. Lances, preços, vencedores recorrentes, relações empresariais, subcontratações e documentos podem ser correlacionados numa escala que seria impraticável há poucas décadas. Inteligência artificial não produz integridade automaticamente. Mas pode tornar padrões muito mais legíveis. O teatro funciona melhor quando cada cena é observada isoladamente.
Quando o roteiro inteiro começa a ser analisado, surge outra pergunta: o que se torna visível quando acontecimentos aparentemente independentes passam a ser observados como um sistema?
Quando o rigor escolhe onde aparecer
O caso dos descontos indevidos em benefícios do INSS apresenta outra face dessa discussão. No balanço de dezembro de 2025, haviam sido abertos 6.362.898 pedidos de contestação; em 6.231.376 deles, aposentados e pensionistas afirmaram não reconhecer os descontos associativos questionados. Fonte: Serviços e Informações do Brasil
A investigação tornou nacional até um apelido que parece retirado de uma ficção brasileira: Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado “Careca do INSS”, foi apontado perante a CPMI como um dos principais articuladores do esquema investigado. Antunes negou envolvimento nas irregularidades, e as responsabilidades individuais continuam submetidas aos respectivos processos de investigação e julgamento. Fonte: Senado Federal
Mas talvez a questão sistêmica seja mais importante do que qualquer personagem. Milhões de aposentados e pensionistas precisaram contestar descontos que afirmavam nunca ter autorizado. Auditorias oficiais identificaram casos em que procedimentos relacionados a consignações ocorreram sem anuência expressa dos beneficiários e registraram segurados que posteriormente declararam não ter autorizado os descontos. Fonte: Serviços e Informações do Brasil
Alguns beneficiários sequer chegaram vivos ao encerramento do processo. Hoje há procedimento específico para que sucessores ou herdeiros possam prosseguir com pedidos já iniciados por beneficiários falecidos. Fonte: Serviços e Informações do Brasil
A ironia institucional é difícil de ignorar. Quando quer controlar, o sistema sabe endurecer. Sabe exigir documento, senha, biometria, prazo, formulário e comprovação. Entretanto, milhões de contestações foram necessárias para revelar que uma engrenagem extremamente rígida em determinadas portas havia sido surpreendentemente permeável em outras.
Depois do escândalo, a própria legislação foi endurecida: em 2026, passaram a ser vedados descontos de mensalidades associativas nos benefícios e foram reforçadas exigências de autorização pessoal, biometria, assinatura qualificada ou autenticação multifator para determinadas operações. Fonte: Planalto
E existe outra camada. A AGU busca bloquear e recuperar patrimônio de entidades, empresas e dirigentes investigados. Em uma dessas ações, pediu bloqueio de R$ 2,56 bilhões, enquanto as investigações apontavam descontos potencialmente indevidos de dimensão ainda maior. Fonte: Serviços e Informações do Brasil
Quanto desse dinheiro efetivamente retornará aos cofres públicos ao final de todos os processos? Ainda não sabemos. Bloquear patrimônio não significa recuperá-lo integralmente. Investigar não significa condenar. Condenar tampouco significa necessariamente conseguir executar todo o patrimônio necessário. O ressarcimento das vítimas é indispensável. Mas permanece uma pergunta incômoda: quem absorve imediatamente o custo quando o sistema falha — e quanto dessa conta conseguirá retornar, no futuro, daqueles que forem efetivamente responsabilizados?
Talvez o aposentado lesado e a pequena empresa independente em um pregão distorcido revelem dimensões diferentes da mesma contradição: o caminho regular pode ser extraordinariamente rígido para quem tenta percorrê-lo corretamente e, ainda assim, apresentar frestas surpreendentes quando estruturas organizadas aprendem a operá-las.
De fora, tudo parece mais simples
Seria confortável terminar essa reflexão dividindo o mundo entre vítimas e culpados. Mas isso nos devolveria exatamente ao problema que estamos tentando observar. De fora, uma dinâmica disfuncional costuma parecer evidente. De dentro, raramente é. É fácil condenar uma peça quando observamos a engrenagem de longe. Muito mais difícil é perceber-se como parte de uma engrenagem que avança em direção a algo que, vista de fora, parece claramente insustentável.
Pessoas não entram necessariamente em estruturas disfuncionais anunciando para si mesmas que participarão de algo errado. Elas entram em empresas, famílias, instituições e relações. Criam vínculos. Desenvolvem lealdades. Dependem do salário, da aprovação, do pertencimento, da proteção ou simplesmente da estabilidade daquela estrutura. Pequenas concessões são racionalizadas. Exceções tornam-se rotina. O que antes incomodava passa a parecer normal.
A convivência prolongada transforma comportamentos extraordinários em parte da paisagem. Dinâmicas de dependência, codependência, medo de ruptura, vantagens acumuladas e ausência de autopercepção podem fazer com que padrões disfuncionais sejam repetidos durante anos sem que seus participantes consigam enxergá-los claramente.
E isso não acontece apenas com “os outros”.
Acontece em famílias.
Em empresas.
Em mercados.
Em governos.
E conosco.
Talvez por isso uma pergunta mais útil do que simplesmente “quem é o culpado?” seja: “que padrão estou ajudando a reproduzir sem perceber?” Romper uma dinâmica disfuncional exige mais do que informação. Exige autopercepção. E autopercepção é particularmente difícil porque aquilo que mais precisamos enxergar costuma ser justamente aquilo que aprendemos a justificar melhor.
Terapia é uma das ferramentas possíveis. Reflexão, educação emocional e outros espaços sérios de elaboração também ajudam. Hoje, inclusive, a tecnologia reduziu algumas barreiras de acesso: atendimento remoto, conhecimento especializado, ferramentas educacionais e recursos de reflexão estão disponíveis de maneira que gerações anteriores simplesmente não possuíam. Mas nenhuma ferramenta conclui esse trabalho por nós. Autoconhecimento é uma jornada permanente.
Talvez o objetivo nem seja atingir um estágio em que nunca mais repetiremos padrões. Talvez seja desenvolver consciência suficiente para percebê-los um pouco antes — e, quando possível, escolher diferente. Porque, em algum momento, toda reforma institucional encontra o ser humano que opera a instituição. E então a transformação externa volta a tocar a transformação interior.
2020: sobreviver não significa aprender
A pandemia de COVID-19 talvez tenha sido o maior teste recente dessa lógica. Ela submeteu simultaneamente sistemas de saúde, governos, empresas, cadeias logísticas, famílias e indivíduos a uma perturbação extraordinária.
Sem imaginar qualquer planejamento deliberado, é possível observá-la retrospectivamente como uma espécie de experimento social involuntário de escala planetária: premissas consideradas estáveis desapareceram e pudemos observar como sistemas inteiros reagiam sob pressão.
A Organização Mundial da Saúde trabalha com uma noção de resiliência que ultrapassa simplesmente resistir: sistemas resilientes precisam preparar-se, absorver impactos, adaptar-se, transformar-se e aprender com os choques. Idealmente, recuperação não significa apenas retornar ao ponto de partida. Fonte: OBS
Daí surge uma pergunta difícil: aprendemos com aquilo que aconteceu ou apenas aprendemos a funcionar novamente? Uma empresa pode atravessar uma crise e retornar aos mesmos vícios. Uma família pode superar uma ruptura reproduzindo a mesma dinâmica. Uma instituição pode digitalizar todos os procedimentos sem se tornar mais íntegra. Uma organização pode incorporar inteligência artificial sem se tornar mais inteligente. A crise oferece matéria-prima.
A transformação não é automática.
Uma coincidência curiosa no céu
Há também uma lente antiga e simbólica para observar grandes ciclos: a astrologia. Em 2020, Saturno e Plutão se encontraram em Capricórnio — combinação tradicionalmente associada a limites, estruturas, poder e transformações profundas. Foi justamente o ano em que o mundo experimentou confinamento, ruptura de rotinas e reorganização de instituições inteiras. A conjunção exata ocorreu em 12 de janeiro, a 22°47' de Capricórnio. Fonte: Cafe Astrology
Em 2026, a paisagem simbólica muda. Saturno e Netuno iniciaram um novo ciclo no início de Áries, com conjunção exata a 0°45' em 20 de fevereiro — uma linguagem tradicionalmente relacionada ao encontro entre realidade e ideal, encerramento e começo, dissolução e construção. Fonte: Cafe Astrology
Isso não prova causalidade e não exige crença. Para alguns, será astrologia. Para outros, apenas uma coincidência interessante. Talvez o mais divertido seja observar como símbolos muito antigos às vezes parecem encontrar palavras para fenômenos surpreendentemente atuais.
Uma tecnologia muda vários mundos ao mesmo tempo
A conexão direta entre satélites e celulares convencionais oferece um exemplo contemporâneo muito mais concreto. O Direct to Cell da Starlink foi desenvolvido para funcionar com telefones LTE existentes sem exigir mudança de hardware, firmware ou aplicativo especial. Os satélites funcionam, na prática, como torres celulares no espaço, integrando-se às redes de operadoras parceiras. Fonte: Starlink
À primeira vista, é uma inovação de telecomunicações. Observada como sistema, interfere também em logística, defesa civil, conectividade rural, Internet das Coisas, infraestrutura, concorrência, regulação e soberania. Na Amazônia, onde distância historicamente significa custo, basta imaginar as consequências de reduzir progressivamente a dependência exclusiva de infraestrutura terrestre em determinadas aplicações.
É isso que torna a disrupção tão difícil de antecipar: vemos primeiro o produto; só depois percebemos quantos ecossistemas ele reorganizou.
A geração pressionada a chegar
Ao mesmo tempo, diferentes épocas históricas passaram a coexistir dentro da mesma organização. Há profissionais cuja identidade foi construída antes da internet. Outros atravessaram toda a digitalização. E há jovens cuja primeira experiência profissional já acontece com inteligência artificial generativa disponível no telefone. Mas talvez a maior pressão sobre essa geração não seja tecnológica.
René Girard chamou atenção para o caráter mimético do desejo: muitas vezes aprendemos o que desejar observando aquilo que os outros parecem desejar. Essa característica sempre esteve entre nós. Hoje, porém, a comparação cabe no bolso e não dorme. O jovem entra no mercado pressionado a chegar.
Ao cargo.
Ao salário.
Ao patrimônio.
À viagem.
À visibilidade.
À imagem de sucesso.
Mas chegar onde?
Há uma diferença profunda entre construir uma trajetória e perseguir a imagem de uma trajetória. Sem individuação suficiente, podemos gastar anos correndo em direção a objetivos que talvez nunca tenham sido verdadeiramente nossos. E existe algo desconcertante nessa corrida: quase tudo aquilo que utilizamos para medir sucesso é impermanente.
Empresas desaparecem.
Governos terminam.
Tecnologias tornam competências obsoletas.
Patrimônios mudam de mãos.
Corpos envelhecem.
A própria vida passa.
Talvez a consciência da finitude devolva perspectiva.
A alquimia possível
Não acredito que exista uma solução definitiva para a complexidade humana. Podemos aperfeiçoar instituições, fortalecer controles, desenvolver tecnologias extraordinárias e corrigir regras. Nenhuma delas obriga alguém a transformar a si mesmo. Vaidade, orgulho, inveja, ganância, comparação, ressentimento, medo e desejo de aprovação pertencem ao repertório humano. Talvez o problema não esteja simplesmente em possuí-los.
O problema começa quando acreditamos que existem exclusivamente nos outros. É muito mais fácil enxergar a ganância do concorrente, a vaidade do chefe, o ressentimento do funcionário, a manipulação da família, a incompetência do governo ou a cegueira do adversário político. Todos podem efetivamente possuir responsabilidades. Mas projetar toda a sombra para fora elimina justamente o único território sobre o qual algum trabalho depende diretamente de nós.
Talvez seja isso que diferentes tradições tenham chamado, com linguagens distintas, de alquimia interior. Não significa ignorar injustiças. Não significa permanecer diante do abuso. Não significa deixar de fiscalizar instituições ou responsabilizar quem deve ser responsabilizado. Significa não utilizar permanentemente a realidade exterior como maneira de escapar de nós mesmos.
A antiga reflexão associada ao Anel de Giges, de Platão, permanece desconfortavelmente atual: quem somos quando ninguém está olhando?
Não quando ocupamos determinado cargo.
Não quando recebemos reconhecimento.
Não quando nossa bandeira vence.
Quando a última porta se fecha.
Independentemente de quem governe o país, continuaremos compartilhando instituições, empresas, famílias, cidades e relações. Arrumar a própria cama não resolve uma política pública. Organizar uma empresa não resolve os problemas estruturais do Brasil. Fazer terapia não corrige uma instituição capturada.
Mas existe algo contraditório em exigir permanentemente do mundo comportamentos que sequer tentamos cultivar na pequena parcela dele sob nossa responsabilidade. Instituições moldam comportamentos. Comportamentos também moldam instituições.
2030 como ponto de observação
Talvez 2030 seja menos uma linha de chegada e mais um ponto de observação. Estamos adquirindo capacidade extraordinária para transformar aquilo que existe fora de nós. Máquinas identificam padrões que escapam à percepção humana. Sistemas anteriormente separados se conectam. Informações dispersas tornam-se relacionáveis. Distâncias perdem parte do significado que possuíam.
Ao mesmo tempo, carregamos conflitos interiores muito antigos dentro de ferramentas cada vez mais poderosas. Não existe garantia de um grande despertar coletivo. Uma pessoa pode atravessar crises, perdas, revoluções tecnológicas e conquistas e terminar a vida presa aos mesmos padrões com que começou. Outra pode utilizar aquilo que lhe acontece como matéria-prima para um trabalho silencioso de elaboração interior. Talvez seja essa a alquimia possível.
Diante de tanta capacidade de transformar o exterior, permanece uma pergunta que nenhuma inteligência artificial poderá responder em nosso lugar: o que estamos transformando dentro de nós enquanto tudo isso acontece? A experiência humana é transitória. Podemos atravessá-la acumulando cargos, títulos, certezas e ressentimentos. Ou podemos utilizá-la como matéria-prima.
Se do pó viemos e ao pó retornamos, talvez uma medida silenciosa da nossa passagem esteja na qualidade daquilo que conseguimos elaborar dentro de nós — e, consequentemente, alimentar no mundo.
O que temos alimentado?
Gratidão ou ressentimento?
Consciência ou automatismo?
Cooperação ou extração?
Altruísmo ou comparação excessiva?
Paz ou vingança?
Não porque qualquer um de nós vá sozinho transformar a humanidade. Talvez sequer exista uma solução final a alcançar. Talvez exista a experiência, a reflexão e a possibilidade de realizar, dentro de nós, alguma alquimia com aquilo que a vida nos entrega. De que vale uma vela diante do sol? Talvez quase nada. Mas, no breu, uma única vela já modifica o espaço ao redor. Um despertar individual pode parecer insignificante diante da dimensão dos problemas humanos.
Ainda assim, cada consciência que se amplia deixa de alimentar, ao menos um pouco, aquilo que antes reproduzia automaticamente. E isso não termina em uma vida. Cada geração recebe um mundo parcialmente construído pelas anteriores e acrescenta a ele suas escolhas, seus erros, suas curas e seus aprendizados. Cada despertar é uma pequena luz acrescentada a uma corrente que atravessa o tempo. Talvez não nos caiba iluminar o mundo inteiro.
Talvez nos caiba cuidar da nossa própria vela — e utilizá-la para enxergar um pouco melhor aquilo que existe dentro de nós. Porque o mundo que vemos lá fora também é, em alguma medida, alimentado pelo mundo que cultivamos por dentro. De indivíduo em indivíduo, geração após geração, talvez seja assim que construímos internamente um mundo melhor — até que ele encontre alguma forma de se refletir no mundo que vemos.
Este texto é uma reflexão pessoal e de gestão. Não constitui parecer jurídico, contábil, médico ou de investimento. Os dados citados têm origem em fontes públicas indicadas ao longo do texto, nas datas de consulta; responsabilidades individuais mencionadas permanecem sujeitas aos respectivos processos.
◆ Sobre a autora

Raquel Lauria
Doutoranda · RTL Amazônia
Administradora (CRA-AM), perita judicial (CONPEJ), corretora (CRECI/AM) e avaliadora de imóveis (CNAI). Doutoranda em Economia Circular e Produção Sustentável.
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